quarta-feira, 19 de setembro de 2007

MENTIRAS

Olhei e me vi assim
No espelho entristecido
Só pensando em mim
Eu fiquei deprimido

Só pensando que você disse
– Eu nunca te quis!
Você gostaria se ouvisse
O que você tanto diz?

Se o caso fosse diferente:
Você fizesse declaração
Me amando e, eu contente,
Humilhava e dizia que não!

Depois eu chegava – tão inocente!
Logo pedindo perdão
Mas sempre tendo em mente
Danar o seu coração.
PERVERSINHO

Pois se o sono não veio
Faço em ti meu recreio
Quero beijar-te o seio
Das tuas pernas, o meio.
POEMINHA CONFUSO

Nunca, nunca mesmo
Eu me apaixonei.
Nem mesmo por você
Nunca me apaixonei.

Raio de rastro que se pensa amor!

Amor, amor, meu amor!
Nunca se apaixone.

ACASO POR ACASO

Ei, fulano!
Quero desabafar para você
Posso?
Para ela não posso
Afinal, tão sumida ela anda
Não me escreve
Não me liga
Nem pro oi de cada dia!
Sabe, fulano, tomei uma decisão:
Desacreditar em tudo que ela já disse.
Ela insiste que não me esqueceu...
Acredita?
Jura que não me largou de escanteio...
Mas será o benedito?
Pode ser, talvez,
João, Rafael, não sei!
Mas tem outro no meio.
Concorda?
Ô, fulano, me faz um favor
Caso a encontre por aí
–Bem sei que não encontrará,
Ela não anda por aí–
Diga o beijo e o abraço
Que eu mandei,
Peça que telefone
Depois das nove
(A fim de ligar mais vezes).
POEMA DE JANEIRO

Eu não sei amar.

Como posso aprender
Se chuvas de verão
Não fecham tempo?

BOM DIA?

Eu não sou feliz.

Como poderia ser
Se os pássaros da minha janela
São sujos pombos?

CAMINHADA DO DIA

Fazia sol
Enquanto eu andava na praia.

Chuva veio
Molhou
E se foi.

Sol voltou.

Eu não parei nem apertei o passo.
RITUAL PARA ESCOLHA DE NOMES

Yasmim, Taís
Quem é você?
Ventry, Beatriz
Ou talvez Psiquê
Dyana, Luana,
Quem sabe até Ana,
Exótico é Brisa!
Ana Elisa
Me avisa onde for,
Não me preocupa!
Juízo, meu amor...

Matheus Henrique,
Ou será Felipe
Será Patric?
Talles, Já fez seus deveres?
Marcos, vá pra escola!
Ja deu a hora da aula
Pai, aquilo é uma jaula!
Nem pai nem meio pai,
Não interessa!
Cuida de seu irmão
Se não quiser ouvir sermão
Eu não me demoro a chegar
Mas as nove vá se deitar
Não vire um maltrapilho
Amo você
Meu eu, meu filho.
JOGOS DE AZAR

Apostamos amor
Como um jogo de sorte
Em que a moeda valia
Do peito ao sexo.

Em cassinos luminosos
Jogamos cartas marcadas
Viciadas roletas
– Brincamos com as mãos.

Com truques que inventei
Ganhava e te punha escrava
(Eu fazia chantagem
Ponto após ponto meu).

Pois não foi que teus calos
Viraram a mesa
O meu mundo
Tudo de pernas pro ar?

“A mim não apetece
Esses jogos de azar.”
Saí dando de ombros
Fracassado e de bolso vazio.
FÓRMULA DO AMOR

Toda vida procurei a fórmula do amor
- ou deveria eu dizer forma?
Contudo, no que se trata de declaração
aprecio as variadas formas
- ou fórmulas?
Uso a forma sem fala
tão sonora quanto mar deserto.
A fórmula do não-dizer
em que mãos deslizam
afirmando vida própria.
A forma de enxergar
o espectro
entre olhos lânguidos.
A fórmula do abraço
Em que dois corpos
Se tornam uma só energia.
Forma de tocar
a criatura como se fosse tua.
Êta, forma de amar!
Quando palavra se faz inválida
lábios e línguas ganham nova função.
SENHORITA HALLEY

Halley, é só a cada 76 anos mesmo?
Você jurou pra mim que vinha antes!
As palavras não brincam de gangorra
Estando as atitudes em contra-partida.

Eu, ditador, quis desacreditar nessa lorota, lorota!
Ordenei que essas duas gangorreassem
As palavras sustentaram as ações
As ações rebaixaram as palavras.

Eu, fazendeiro, quis aumentar meu latifúndio
Expandir-me para o espaço sem fronteiras
- Essa mania de grandeza é que me estraga.
Quis ser seu dono, Halley!

Halley, você disse que era um cometa só meu!
Não me passou que cometas não têm dono
Halley, pois tão estúpido eu fui!
Não me passou que cometas não têm palavra.
YASMIM

Olá, Yasmim
Como vai sem mim?
Sem meu carinho
Como vai seu espinho?

Rosa linda
De cor rósea ferida
Cor-de-rosa sangrando
Rosa rósea me amando

Olá, Yasmim
Como vai sem mim?
Sem meu espinho
Como vai seu carinho?

Rosa do espinho
Dá cor rósea de carinho
Cor-de-rosa traiçoeira
Rosa rósea dá rasteira

Olá, Yasmim
Quero, quero sim,
Mas tem que ser filha
Minha única filha
Princesinha Yasmim...
LULA E NOSSO MINDINHO

Um dia, um tal de Lula
Radicalmente mal-educado
Perdeu seu mindinho num motor
Saiu que saiu revoltado
Gritou transbordado de furor!

Pois viu logo na bula
Que direitos ele tinha
Enfiou-se à gente importante
– Gente cheia de gracinha
Que adora uivar ofegante.

Mas injustiça o homem não anula
Berrava a um Brasil que fazia nada!
Cansado de o destino lhe pôr de castigo
Jurou em noite enluarada:
– Esse Brasil ainda se vê comigo!

Foi aí que a figura se fez fula
E ninguém segurou o barbudo.
Conforme crescia, seguia vendo
Já sabia de dores e cicatrizes (tudo!)
E com política acabou se metendo.

O capítulo termina nessa firula
Lula na presidência se atiça
Faz seu serviço alegrinho
Será que Lula fará justiça
Cortando o nosso mindinho?
SINAL VERDE
(2ª POESIA DO ZECA)

Ali seu Zé cantarolava
Assobiava um samba
E descansava o pé sobre o poste
Enquanto esperava o sinal fechar.

D'outro lado dona Maria
Pensava nas unhas
E ajeitava a saia curtinha
Que os carros ajudavam a subir.

Num arruma-arruma do que olhar
As coxas brasileiras da Maria
Deram força ao samba do Zé
Embaladas num molejo discreto e safadinho.

Das coxas facinho subiu pros seios
E pra boca e pros olhos
Um amor quase à primeira vista
– Das coxas pros olhos.

E se olhando continuaram
Disfarçando o sorriso
Dos olhos risonhos
– Eles já podiam se casar.

Aí, num súbito de sede e cegueira
Sem desgrudar os olhos dos olhos
A Maria confiou no Zé
Que confiou na Maria primeiro:

Atravessaram a rua assim
Se olhando e se olhando
E torcendo por um esbarrão
Que acabou um caminhão por fazer.
BOLETIM DE VIOLÊNCIA
(1ª POESIA DO ZECA)

Zequinha namorando no beco sem saída
Abraçando gostosinho a Dona Maria
O moço de boné interrompendo a ação
De supetão vindo as palavras pontudas
Eu quero a carteira
Passa logo a carteira, seu Zé!
Ia Zé Ordinário doando sua féria
Ia vergonha crescendo
Ia a cabeça abaixando
Da cúmplice se escondendo.
Zé Burro tomou decisão
A orla do boné desaparecendo na esquina
Zé Carlos desembocou correndo do beco
Fazendo escândalo ofegante
Chamando o desgraçado de desgraçado
Desgraçado que mais desgraçou o desgraçado do Zé
O boné se assustando e disparando gatilho
O metal perfurando e parando Zeca
A carteira indo embora com o boné
E foi.
Zeca caindo no asfalto
Duro e frio
E foi.
Foi na Pompéia de Santos.
MÚSICA NÃO-TÃO-POPULAR BRASILEIRA

Obrigado, bela amizade
Gilberto Veloso de Hollanda
Amigo do Brasil

Se hoje digo o que digo
A culpa é sua.
É proibido proibir.

Se música brasileira é cultura
– E é! –
Deus lhe pague.

Se há gente matando o verde
Matando o amarelo no verbo
Cálice!

Se há quem cace o apaixonado
Você, meu camarada, já disse!
Aquele abraço...
AULA DE FÍSICA

Primeira aula

Hoje aprendi que,
Quando há vácuo em um recipiente,
A relação entre a pressão do meio externo e a do interno tende a infinito.

Em um exemplo tolo,
Pensei num saquinho plástico fechado a vácuo.
Fica parecendo uma folha: a pressão de fora espreme uma parede contra a outra.

Para a aula se tornar um pouco útil,
Tentei entender o Vácuo Existencial.
Será que a dor que sentimos no peito provém de tanta pressão externa em tanto nada?


Segunda aula

Disseram por aí que,
Embora demore um bocado,
O vácuo é capaz de criar matéria (perdendo, assim, sua identidade).

No anseio de exemplificar,
Ilustraram a teoria com o nascimento do universo.
Faz sentido crer que a matéria, no alfa de tudo, tenha surgido do vácuo.

Vi a solução da minha dor no peito,
Tanto nada criará um conteúdo em meu ser.
Ou será que o Vácuo Existencial não se curva perante as leis da física?
IMPOSIÇÃO DOS OPOSTOS

O próton que tanto seduz o elétron
Faz da atração entre opostos
Lei da natureza.

(Mais uma entre aquelas
Que transformam o homem
Em ser impotente.)

O próton que faz do elétron
Coisinha tão agitadinha,
Tão cheia de energia.

(Energia tamanha
Que alumia ao ficar
Mais pertinho do seu amor.)

O próton que nem se emociona
Faz pouco das ternurinhas
Do irradiante elétron.

(Choque psicológico!
Diferença de potencial:
Choque elétrico!)

A Moça-próton que ri da poesia
Que eu-elétron esculpi
Pra guardar energia transbordada.

(Mais uma entre aquelas
Que transformam o homem
Em ser impotente.)

DESILUSÃO

Tarde rompi as janelas do meu casulo:
vi seu choro abandonado
na carona de um guarda-chuva preto.

SUPERFICIALIDADE

Esse babaca
com gíria na boca
e nada no cérebro
me dá nojo
inquietude
inveja.
"Tudo que sai impresso é epitáfio."
"Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia."
(Mario Quintana)



POESIA

No papel havia um bicho
Que era e que não é mais
– Eu o matei.
DE POSTE EM POSTE

Uma sombra deitada
Acordada e dinâmica
Refletindo no asfalto
Tudo que não conheço.

Passo a mais, passo a mais
A luz descorando o sem-cor.
Passo a mais, passo a mais
Rumo a morte da escuridão.

Quando se dá por plena
A luz deste meu passo,
Uma sombra que se extingue
É um novo curso que começa.

Passo a mais, passo a mais
O negro borrando o clarão.
Passo a mais, passo a mais
Rumo a morte da plenitude.

Quando se toma forma
A sombra berrante que me guia,
Recorro-me a uma luz
Para livrar-me desta cegueira.

E passo a mais, passo a mais
Luz sanando sombra.
Passo a mais, passo a mais
Luz gerando sombra.
VAIDADE

Vaidade
Dá de cara com o espelho e diz:
Vai, idade! Vai, idade!

Espelho
Lho devolve de reflexo:
Vai idade, vai vaidade...
LENÇOL DE PAPEL

A desértica cama de casal
Dá-me na cara a solteirice.
Vem logo, mulher!
Já me cansei de apanhar de um leito tão maior que eu.

Vem, mulher, vem depressa!
Mas traz contigo um travesseiro
Resistente às tuas garras.
Já se apóia minha cabeça em plumas de sonho e experiência.

Vem voando, mulher!
Mas vem em carne, osso e libido.
Há tanto suor e saliva a se valer
Já que os loucos se embalam no gentil rítmo das meretrizes.

Quanto mais te espero cá
Morro mais no escuro da noite.
Vem, mulher, vambora!
É que ainda se aguarda um poema a se grafar nos meus lençóis.

Curtinha Encucada

Que se encuco
Logo me embico,
Me toca um fuxico
Que quase me caduco.

Até que me emputo e acabo com a brincadeira:

Te pergunto
Desencuco
Desembico
E volto a te amar!